Feliz renascer do Sol
Olá. Fez algum tempo desde a última vez que te escrevi. Andei á tua procura, pensei ter-te visto algumas vezes mas afinal não eras tu. Continuei, com certeza perdi-me a meio do percurso pois dei por mim á beira de um lago com águas iguais às de Blake: Estagnadas. Tinha sede, tanta sede, bebi o veneno esperando que o provérbio do Inferno não se confirmasse, um golpe de fé para me ajudar a continuar o caminho, a tua silhueta sempre esteve nos meus olhos, sempre corri para te encontrar. Mas correste mais rápido.
Admito que houve uma altura em que me consolei com a ideia de pelo menos existires em algum lugar, ainda que longe de mim, muito longe, longe demais. Existem coisas que não podem ser evitadas por mais que tentemos faze-lo. Conclusão simples de algo com tanto mais por trás.
Acordei um dia com a cara na lama do lago onde perdi o rasto á estrada, devia ser Inverno apesar do calor, as cores davam-lhe esse aspecto. Nunca me lamentei por não me ter afogado, fiquei antes contente por ter conseguido continuar a beber do veneno e parar por minha própria vontade. Poderia ter drenado aquelas águas, tive consciência disso várias vezes, mas qual seria o efeito de tal mutilação pelo simples objectivo de evitar que alguém que me pudesse seguir se embriagasse no mesmo? Nenhuma, afinal de contas, no fundo, nunca o lago deixou de fazer também ele parte do caminho. Todos caem mas só os fracos não se levantam. Life had to go on.
Passaram longas noites desde então, pensei em ti várias vezes e em reatar contacto. Não sabia o que escrever no entanto, não sabia o que te podia dizer depois daquele percalço… Ou se te devia escrever sequer.
Certo dia percebi que não tinhas silhueta alguma. Por essa mesma altura comecei finalmente a encontrar pedaços soltos de ti á minha volta, quando parei de te tentar dar uma cara senti o reflexo dos teus olhos, vindos de tantos sítios que pensei não passares de uma ave mítica e extinta ao olhar do Homem. Tal eventualidade continua a fazer sentido, depende apenas do homem em si para conter a sua verdade.
Lá estava eu em mais uma noite, de nada á espera, quando finalmente me vieste visitar. Que impacto, receei ser uma partida de alguém que tivesse visto a nossa correspondência, parecia bom demais para ser genuíno. Vi uma cara mas até hoje manténs tantos traços indecifráveis com o teu véu que não me posso arriscar a dizer que és mesmo tu, embora pareças mesmo e talvez sejas, talvez me tenhas encontrado. Talvez, outra vez.
As tuas palavras soaram tão sinceras, tão conscientes, tão Tu. Sou levado de volta ao templo que construi para ti, só que agora o ídolo é feito de carne e não de mármore branco polido. Falaste comigo de equilíbrio, de felicidade, de respeito e eu vi os teus lábios a mexer apesar de estar acordado. Senti-me atordoado com a luz com que fui iluminado e puxei-te para mim, não recuaste, acolheste-me, e nesse instante soltou-se por todo o eu um grito de despertar. Alive. Very much, I felt again. De repente foi como se todo o veneno que drenara do lago fosse agora drenado de mim em direcção a um buraco negro que cessa sobre si mesmo a cada momento que passa, um buraco cada vez mais doente e perdido á medida que recupero a saúde contigo. Há quem diga que no instante antecedente á Morte vemos um flash de todos os momentos da nossa vida, pois bem, eu devo ter morrido naquele momento e nunca a morte me fizera sentir tão bem, nunca.
Caminhámos pela cidade, o Verão chegara finalmente em cores, como é bonita essa tua face Desconhecida, como tudo rejuvenesceu com a tua visita. Desde então cada vez mais me convenço que o divino está nesta vida e não na aclamada seguinte, trancada no jardim do porteiro crucificado. É-me concedida uma nova oportunidade para trabalhar o sonho na vida real, á qual aspiro, não quero sonhar mais, quero viver de verdade. E posso-o.
Uma coisa mais eu descobri, não tens uma única face, tens várias. Desculpa-me se quebro aqui o romantismo do relato mas como referi no parágrafo anterior, não quero viver num sonho, quero viver um sonho, dar-te uma única cara seria injectar novamente um veneno possivelmente tão nocivo como o qual me zombificara durante meses, a longo prazo pelo menos, esse poderia ser o efeito. Não, não te vou encher com essa responsabilidade e tal não se deve a piedade, deve-se a coerência, tentei dar-te a entender que a encontraria, pois bem, aqui está um odor da mesma, orgulha-te da ajuda que me prestaste na sua procura, é real.
Onde tu te encontras sei agora, de facto, nunca me abandonaste, apenas te procurei no local errado na ambição de ter uma única resposta correcta. Estás nas páginas que folheio, nas janelas que abro e fecho, nas imagens que vejo, nos sorrisos que partilho, nas melodias que escuto, na verdade, na mentira… Na sabedoria, no prazer de viver a vida com os atributos que foram postos em mim e com a ajuda, indispensável, de quem me rodeia e acompanha com preocupação nas horas em que tropeço á tua procura e me dá uma bofetada corajosa se penso em desistir.
Estás em todo o lado, só que agora, pareço ter-te encontrado personificada num corpo que também desejo e com tudo o resto inerente, podendo as palavras assim organizadas soar diminutivas deste facto, tal foi essencial para me aperceber de onde realmente estavas, sem isso talvez nunca tomasse consciência completa de onde estava a tua essência, com ele posso então festejar o teu encontro.
Erra, não espero nem desejo novamente a perfeição, acertar á primeira, como alguém o disse, é encrostar uma pressão demasiado enorme de suportar na alma, é minar o que apenas com paciência, respeito, sinceridade, confiança e perdão se pode atingir. Também errarei, mas esperarei sempre que confies em mim para dar a volta por cima. Para aprender há que cair, e cai, mas agora levanto-me calejado para os tropeços que se hão de seguir, eles virão, só que agora contigo a meu lado, não como bengala mas como motivação, posso voltar a perder-te de vista, mas nunca te voltarei a perder o contacto e vou-te encontrar quantas vezes forem precisas… Ou então encontrar-me-ás tu como fizeste agora, só que para isso foi preciso procurar-te. A luta valeu a pena. “Quem espera sempre alcança” diz a frase feita, meia-verdade, quem só espera nunca alcança… Apenas quem também procura colhe a mais doce fruta.
Teu, mas sempre Eu
Nuno Miguel Silva
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