terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Desassosego Da Noite

              A cidade onde moro dorme, na rua além dos candeeiros ligados e prédios de luzes apagadas, apenas um ou outro carro e pessoa que passa de regresso a casa, no despojo da noite, indica que a vida não desapareceu nesta zona da periferia lisboeta.
O silêncio é suspenso apenas pelo vento da madrugada, todos dormem, a maior parte das pessoas pelo menos, para ser realista, nas suas camas, nos sofás ou outro qualquer sítio, talvez inimaginável, não me arrisco a garanti-lo, mas que toda a localidade é fértil a possuir o seu próprio sádico sem escrúpulos é uma coisa que todos nós vamos lentamente ganhando consciência, basta ver televisão ou ler um jornal, os exemplos multiplicam-se de dia para dia.
Enquanto observo fumo do cigarro que expiro na direcção da janela com a mão sobre o cinzeiro, uma luz de tungsténio entra-me difusa pela retina, desfocada pela direcção e concentração do meu olhar na cinza do pequeno soldado da morte, toma a forma de uma estrela sem pontas, tal como as reais. É uma visão agradável, gosto de observar a interacção deste mecanismo humano com uma simples lâmpada de rua, a beleza encontra-se em locais e momentos improváveis á partida. Gosto do enquadramento que visualizo sem qualquer preparação do mesmo, semelhante coisa não se pode dizer do desassossego que o seu ambiente me transmite.
Invariavelmente, é durante as horas nocturnas que o meu espírito visita locais mais duvidosos de onde encontrar conforto, a tela negra do céu exerce no ser humano uma inclinação para a introspecção superior aos outros cenários, pelo menos comigo funciona assim, não penso que esteja errado ao afirmar tal coisa de qualquer maneira, mas para estatísticas existe quem faça disso a sua profissão, a mim compete-me apenas senti-lo.
Devia estar a dormir por esta hora, amanhã (ou devo dizer “hoje”?) tenho de acordar cedo, mas por algum motivo que não descuro e procuro encontrar, ergueu-se em mim uma inquietação, que tem raros precedentes deste nível, que não mo permite fazer. Sei que se me deitar eventualmente acabarei por adormecer rapidamente, talvez enquanto faço as mesmas perguntas que por enquanto me fazem manter acordado, mas recuso-me a faze-lo, algo me impele a manter-me neste transe consciente até concluir o que tenho a fazer, disse-me o sentimento que hoje era escrever.
Longas linhas se passaram e ainda não dei qualquer indício concreto do que recordo por estas horas, é altura de o fazer penso eu, toda a introdução conduz a um desenvolvimento antes da conclusão.
Penso em tudo o que faço por não pensar durante o dia, a parte activa do mesmo, estudantil, profissional ou de entretenimento. Penso no Tempo. Penso na Vida, lugar-comum de cada um. Penso ter descoberto, senão na psicologia humana em geral, pelo menos num individuo, o arrependimento não-arrependido, ou não-arrependimento arrependido, face á sensação a ordem das palavras é não só irrelevante como de momento impossível de objectivar correctamente.
Sendo mais claro, alguma vez deste por ti a te aperceber que determinada acção que tomaste não corresponde ao teu desejo actual? É óbvio que sim, o arrependimento faz parte do intelecto, nega-o com idílicas afirmações retiradas de manuais de filosofia egocêntrica ou cego no teu convencimento do contrário, mas a verdade é que em alguma altura da tua vida tal sentimento se despertou. Até aqui não disse nada de possivelmente novo, isso leva-me de seguida á verdadeira questão, alguma vez deste por ti a te aperceber que determinada acção que tomaste não corresponde ao teu desejo actual… mas que de alguma maneira foi exactamente o que ainda hoje pensas ter sido a atitude correcta? Falo por mim, mas a resposta é sim e espero piamente que não seja o único, seria bom e ao mesmo tempo mau demais para ser verdade.
É verdade, cabe isto na definição de paradoxo? Qual é a explicação? Uma simples racionalização leva-me a aceitar esta situação: fiz algumas coisas de que hoje me arrependo mas que na altura que as cometi, estava perfeitamente convencido de que era isso o melhor. Não, não é isto que se passa, não estou a falar de arrependimento tardio. Próxima racionalização com o mesmo fim: fiz algumas coisas de que hoje me arrependo, mas que na altura cometi, no entanto parte do arrependimento reside em não ter feito mais, ainda assim sobra espaço para chegar á conclusão de que me excedi e não gosto da noção de tal facto, por mais que ele tenha sido justo ou não. Está feito, aceito a situação com que me deparo, mas e então, devolvo com isto a paz á consciência? Nenhuma. É atroz esta convicção, vejo no seu mesmo reflexo o Deus ingénuo e o malévolo Diabo fundidos.
A mente é um mar inexpugnável de memórias afectivas para com as mais diferentes realidades, o que matas com as próprias mãos desaparecendo para sempre na literalidade do dia-a-dia pode sobreviver contigo até ao instante da tua morte, mais presente até do que quando alimentavas a sua sobrevivência.
É apenas natural, por esta altura, pensares que o que escrevo é demasiado ambíguo, e é apenas natural também que concorde contigo, no entanto é este o preço a pagar para acederes, de minha livre vontade e iniciativa, aos meus mais profundos pensamentos.
Como é possível que desejes ter ido mais longe, decididamente ao extremo, enquanto assinalas dentro de ti que um regresso ao passado, para abortar algo que nem executado se aproximou do desejado, seria capaz de ser a única solução para o desassossego que te martiriza? Quem tem a resposta? Não eu, e agradeço assistência.
Está escuro, malvada noite que me atinges com mais encadeamento do que o dia, trazes-me sentimentos que não procurava e que agora não consigo dispensar, enches-me com o teu silêncio e nele escondes a resposta elusiva que procuro, mastigas-me o cérebro dormente com a tua inquietação, castigas-me com um sentimento que nem claro para mim é, e calas-me, durante horas, por mais vozes que me rodeiem.