terça-feira, 25 de outubro de 2011

O Desassosego Da Noite

              A cidade onde moro dorme, na rua além dos candeeiros ligados e prédios de luzes apagadas, apenas um ou outro carro e pessoa que passa de regresso a casa, no despojo da noite, indica que a vida não desapareceu nesta zona da periferia lisboeta.
O silêncio é suspenso apenas pelo vento da madrugada, todos dormem, a maior parte das pessoas pelo menos, para ser realista, nas suas camas, nos sofás ou outro qualquer sítio, talvez inimaginável, não me arrisco a garanti-lo, mas que toda a localidade é fértil a possuir o seu próprio sádico sem escrúpulos é uma coisa que todos nós vamos lentamente ganhando consciência, basta ver televisão ou ler um jornal, os exemplos multiplicam-se de dia para dia.
Enquanto observo fumo do cigarro que expiro na direcção da janela com a mão sobre o cinzeiro, uma luz de tungsténio entra-me difusa pela retina, desfocada pela direcção e concentração do meu olhar na cinza do pequeno soldado da morte, toma a forma de uma estrela sem pontas, tal como as reais. É uma visão agradável, gosto de observar a interacção deste mecanismo humano com uma simples lâmpada de rua, a beleza encontra-se em locais e momentos improváveis á partida. Gosto do enquadramento que visualizo sem qualquer preparação do mesmo, semelhante coisa não se pode dizer do desassossego que o seu ambiente me transmite.
Invariavelmente, é durante as horas nocturnas que o meu espírito visita locais mais duvidosos de onde encontrar conforto, a tela negra do céu exerce no ser humano uma inclinação para a introspecção superior aos outros cenários, pelo menos comigo funciona assim, não penso que esteja errado ao afirmar tal coisa de qualquer maneira, mas para estatísticas existe quem faça disso a sua profissão, a mim compete-me apenas senti-lo.
Devia estar a dormir por esta hora, amanhã (ou devo dizer “hoje”?) tenho de acordar cedo, mas por algum motivo que não descuro e procuro encontrar, ergueu-se em mim uma inquietação, que tem raros precedentes deste nível, que não mo permite fazer. Sei que se me deitar eventualmente acabarei por adormecer rapidamente, talvez enquanto faço as mesmas perguntas que por enquanto me fazem manter acordado, mas recuso-me a faze-lo, algo me impele a manter-me neste transe consciente até concluir o que tenho a fazer, disse-me o sentimento que hoje era escrever.
Longas linhas se passaram e ainda não dei qualquer indício concreto do que recordo por estas horas, é altura de o fazer penso eu, toda a introdução conduz a um desenvolvimento antes da conclusão.
Penso em tudo o que faço por não pensar durante o dia, a parte activa do mesmo, estudantil, profissional ou de entretenimento. Penso no Tempo. Penso na Vida, lugar-comum de cada um. Penso ter descoberto, senão na psicologia humana em geral, pelo menos num individuo, o arrependimento não-arrependido, ou não-arrependimento arrependido, face á sensação a ordem das palavras é não só irrelevante como de momento impossível de objectivar correctamente.
Sendo mais claro, alguma vez deste por ti a te aperceber que determinada acção que tomaste não corresponde ao teu desejo actual? É óbvio que sim, o arrependimento faz parte do intelecto, nega-o com idílicas afirmações retiradas de manuais de filosofia egocêntrica ou cego no teu convencimento do contrário, mas a verdade é que em alguma altura da tua vida tal sentimento se despertou. Até aqui não disse nada de possivelmente novo, isso leva-me de seguida á verdadeira questão, alguma vez deste por ti a te aperceber que determinada acção que tomaste não corresponde ao teu desejo actual… mas que de alguma maneira foi exactamente o que ainda hoje pensas ter sido a atitude correcta? Falo por mim, mas a resposta é sim e espero piamente que não seja o único, seria bom e ao mesmo tempo mau demais para ser verdade.
É verdade, cabe isto na definição de paradoxo? Qual é a explicação? Uma simples racionalização leva-me a aceitar esta situação: fiz algumas coisas de que hoje me arrependo mas que na altura que as cometi, estava perfeitamente convencido de que era isso o melhor. Não, não é isto que se passa, não estou a falar de arrependimento tardio. Próxima racionalização com o mesmo fim: fiz algumas coisas de que hoje me arrependo, mas que na altura cometi, no entanto parte do arrependimento reside em não ter feito mais, ainda assim sobra espaço para chegar á conclusão de que me excedi e não gosto da noção de tal facto, por mais que ele tenha sido justo ou não. Está feito, aceito a situação com que me deparo, mas e então, devolvo com isto a paz á consciência? Nenhuma. É atroz esta convicção, vejo no seu mesmo reflexo o Deus ingénuo e o malévolo Diabo fundidos.
A mente é um mar inexpugnável de memórias afectivas para com as mais diferentes realidades, o que matas com as próprias mãos desaparecendo para sempre na literalidade do dia-a-dia pode sobreviver contigo até ao instante da tua morte, mais presente até do que quando alimentavas a sua sobrevivência.
É apenas natural, por esta altura, pensares que o que escrevo é demasiado ambíguo, e é apenas natural também que concorde contigo, no entanto é este o preço a pagar para acederes, de minha livre vontade e iniciativa, aos meus mais profundos pensamentos.
Como é possível que desejes ter ido mais longe, decididamente ao extremo, enquanto assinalas dentro de ti que um regresso ao passado, para abortar algo que nem executado se aproximou do desejado, seria capaz de ser a única solução para o desassossego que te martiriza? Quem tem a resposta? Não eu, e agradeço assistência.
Está escuro, malvada noite que me atinges com mais encadeamento do que o dia, trazes-me sentimentos que não procurava e que agora não consigo dispensar, enches-me com o teu silêncio e nele escondes a resposta elusiva que procuro, mastigas-me o cérebro dormente com a tua inquietação, castigas-me com um sentimento que nem claro para mim é, e calas-me, durante horas, por mais vozes que me rodeiem.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Vazio?

Custará um silêncio mais do que uma resposta
Uma mentira menos do que uma omissão
Qual o preço afinal pelo barro despedaçado
que no fim da refeição a hipócrita hipocrisia deixa?

Existem tempos em que olhar o vazio é aterrador
Uma mancha invisível na sua densidão
Porém a luz tem o seu próprio condão de terror
E esta queima onde tudo agoniza mas nada amortiza

Chegar demasiado perto do sol é arder cego
Cair ás escuras terra adentro aguarda aquele que o tentou
Guiado por trovão contra a cresta do planeta que o acolhe
Recolhe da cinza que sobrou a essência que o salvou

Uma brisa bofeteia a pele mais recordada
Uma memória tão triste e dada a abandonada
Sobra o instinto que no sol tocou cego de luz
Existem tempos em que olhar o vazio é impulsionador

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Tecto de Lágrimas

Aprender para morrer...
O que resume uma vida além da saudade?
A mágoa, talvez, das coisas esquecidas
E das quais preferimos não nos lembrar
Agora as mais belas pétalas da vida crescem...
Mas ora cairão.

Quando a distância que falta para o fim se encurtar
A recordação será um tecto decorado de lágrimas
Que nos remete para o silêncio de um sorriso eterno
Sofremos, é-lo bem dito, sim,
Mas também rimos
E mesmo a mais fatalista das visões
não consegue dispensar a lembrança...
Da primavera que aconteceu

É, creio, por esse motivo
Que a dor pode ser grande no final
Não pelo que se sofreu
Mas pelo que se perderá para sempre...
A partilha que é impossível por registos
As imagens que só quem as teve compreende...
É triste a beleza do dia Último
E inigualável em verdade

Pelo Momento

Saias, pernas, carne, sangue
Mistura de festejo ritual e desejo animal
Embriagado, confundido
Luz e álcool até ao alucino final

Consome antes que seja demasiado tarde para sentir
Extenua os sentidos na Loucura

O sacrifício pela verdade é inútil
Altruísmo orgulhoso
Eis a solução fria para qualquer dor de peito
Liberta suor ante suor
Pelo momento, se o momento existe
Os filhos da Babilónia paridos por Pandora
Desafiam a lei dos homens...
A sua moralidade falível

No sangue da procriação renasce a chama que queima a vida
Que a consome até ao ponto de cinza
Para arder de novo e em maior esplendor
Á medida que o vento sopra sobre o minarete emudecido

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Mais Uma Vez... Uma Carta À Desconhecida

Feliz renascer do Sol

Olá. Fez algum tempo desde a última vez que te escrevi. Andei á tua procura, pensei ter-te visto algumas vezes mas afinal não eras tu. Continuei, com certeza perdi-me a meio do percurso pois dei por mim á beira de um lago com águas iguais às de Blake: Estagnadas. Tinha sede, tanta sede, bebi o veneno esperando que o provérbio do Inferno não se confirmasse, um golpe de fé para me ajudar a continuar o caminho, a tua silhueta sempre esteve nos meus olhos, sempre corri para te encontrar. Mas correste mais rápido.
Admito que houve uma altura em que me consolei com a ideia de pelo menos existires em algum lugar, ainda que longe de mim, muito longe, longe demais. Existem coisas que não podem ser evitadas por mais que tentemos faze-lo. Conclusão simples de algo com tanto mais por trás.
Acordei um dia com a cara na lama do lago onde perdi o rasto á estrada, devia ser Inverno apesar do calor, as cores davam-lhe esse aspecto. Nunca me lamentei por não me ter afogado, fiquei antes contente por ter conseguido continuar a beber do veneno e parar por minha própria vontade. Poderia ter drenado aquelas águas, tive consciência disso várias vezes, mas qual seria o efeito de tal mutilação pelo simples objectivo de evitar que alguém que me pudesse seguir se embriagasse no mesmo? Nenhuma, afinal de contas, no fundo, nunca o lago deixou de fazer também ele parte do caminho. Todos caem mas só os fracos não se levantam. Life had to go on.
Passaram longas noites desde então, pensei em ti várias vezes e em reatar contacto. Não sabia o que escrever no entanto, não sabia o que te podia dizer depois daquele percalço… Ou se te devia escrever sequer.
Certo dia percebi que não tinhas silhueta alguma. Por essa mesma altura comecei finalmente a encontrar pedaços soltos de ti á minha volta, quando parei de te tentar dar uma cara senti o reflexo dos teus olhos, vindos de tantos sítios que pensei não passares de uma ave mítica e extinta ao olhar do Homem. Tal eventualidade continua a fazer sentido, depende apenas do homem em si para conter a sua verdade.
Lá estava eu em mais uma noite, de nada á espera, quando finalmente me vieste visitar. Que impacto, receei ser uma partida de alguém que tivesse visto a nossa correspondência, parecia bom demais para ser genuíno. Vi uma cara mas até hoje manténs tantos traços indecifráveis com o teu véu que não me posso arriscar a dizer que és mesmo tu, embora pareças mesmo e talvez sejas, talvez me tenhas encontrado. Talvez, outra vez.
As tuas palavras soaram tão sinceras, tão conscientes, tão Tu. Sou levado de volta ao templo que construi para ti, só que agora o ídolo é feito de carne e não de mármore branco polido. Falaste comigo de equilíbrio, de felicidade, de respeito e eu vi os teus lábios a mexer apesar de estar acordado. Senti-me atordoado com a luz com que fui iluminado e puxei-te para mim, não recuaste, acolheste-me, e nesse instante soltou-se por todo o eu um grito de despertar. Alive. Very much, I felt again. De repente foi como se todo o veneno que drenara do lago fosse agora drenado de mim em direcção a um buraco negro que cessa sobre si mesmo a cada momento que passa, um buraco cada vez mais doente e perdido á medida que recupero a saúde contigo. Há quem diga que no instante antecedente á Morte vemos um flash de todos os momentos da nossa vida, pois bem, eu devo ter morrido naquele momento e nunca a morte me fizera sentir tão bem, nunca.
Caminhámos pela cidade, o Verão chegara finalmente em cores, como é bonita essa tua face Desconhecida, como tudo rejuvenesceu com a tua visita. Desde então cada vez mais me convenço que o divino está nesta vida e não na aclamada seguinte, trancada no jardim do porteiro crucificado. É-me concedida uma nova oportunidade para trabalhar o sonho na vida real, á qual aspiro, não quero sonhar mais, quero viver de verdade. E posso-o.
Uma coisa mais eu descobri, não tens uma única face, tens várias. Desculpa-me se quebro aqui o romantismo do relato mas como referi no parágrafo anterior, não quero viver num sonho, quero viver um sonho, dar-te uma única cara seria injectar novamente um veneno possivelmente tão nocivo como o qual me zombificara durante meses, a longo prazo pelo menos, esse poderia ser o efeito. Não, não te vou encher com essa responsabilidade e tal não se deve a piedade, deve-se a coerência, tentei dar-te a entender que a encontraria, pois bem, aqui está um odor da mesma, orgulha-te da ajuda que me prestaste na sua procura, é real.
Onde tu te encontras sei agora, de facto, nunca me abandonaste, apenas te procurei no local errado na ambição de ter uma única resposta correcta. Estás nas páginas que folheio, nas janelas que abro e fecho, nas imagens que vejo, nos sorrisos que partilho, nas melodias que escuto, na verdade, na mentira… Na sabedoria, no prazer de viver a vida com os atributos que foram postos em mim e com a ajuda, indispensável, de quem me rodeia e acompanha com preocupação nas horas em que tropeço á tua procura e me dá uma bofetada corajosa se penso em desistir.
Estás em todo o lado, só que agora, pareço ter-te encontrado personificada num corpo que também desejo e com tudo o resto inerente, podendo as palavras assim organizadas soar diminutivas deste facto, tal foi essencial para me aperceber de onde realmente estavas, sem isso talvez nunca tomasse consciência completa de onde estava a tua essência, com ele posso então festejar o teu encontro.
Erra, não espero nem desejo novamente a perfeição, acertar á primeira, como alguém o disse, é encrostar uma pressão demasiado enorme de suportar na alma, é minar o que apenas com paciência, respeito, sinceridade, confiança e perdão se pode atingir. Também errarei, mas esperarei sempre que confies em mim para dar a volta por cima. Para aprender há que cair, e cai, mas agora levanto-me calejado para os tropeços que se hão de seguir, eles virão, só que agora contigo a meu lado, não como bengala mas como motivação, posso voltar a perder-te de vista, mas nunca te voltarei a perder o contacto e vou-te encontrar quantas vezes forem precisas… Ou então encontrar-me-ás tu como fizeste agora, só que para isso foi preciso procurar-te. A luta valeu a pena. “Quem espera sempre alcança” diz a frase feita, meia-verdade, quem só espera nunca alcança… Apenas quem também procura colhe a mais doce fruta.

Teu, mas sempre Eu

Nuno Miguel Silva

terça-feira, 5 de julho de 2011

Sobre a Visão

Nos dias que correm queixamo-nos de que é raro encontrar uma pessoa com "visão".

Independentemente de ser mais complicado encontrar soluções para os problemas de agora, sendo empreendedor e esclarecido, o que também é verdade é que são os cegos que são postos á procura de tais pessoas. Se o iludido palpa terreno á procura de encontrar uma pepita de ouro no meio do rio contemporâneo, é natural que o que mais lhe passa pelas mãos seja a corrente de água poluida que todos os dias chega aos nossos copos através das canalizações feitas pelos mesmos que procuram a "visão" sem se preocupar em filtrar o brilho mas sim a Luz.

Por mais que a coerência humana fale através da garganta e de gestos, a beleza dos pequenos actos que nos separam em conteudo das demais efémeras e insignificantes existências, será silenciada e moldada á forma do que trouxer reconhecimento á sobrevivência, esse acto de passar ao lado da capacidade total com que nascemos para usufruir da beleza do Universo que nos rodeia, por troca com a imediata solução vazia de riqueza interior.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Caprichos

                 Dado adquirido: Os caprichos várias vezes acabam por se virar contra o seu perpetuador. Era nisso que ele pensava enquanto deambulava por entre os corpos extenuados de gozo no chão que pisava. O cheiro ambiente, agora que a embriaguez passara, era não menos do que asqueroso, o vómito estava a ser díficil de conter.
Entrou na casa de banho, depois de desviar o corpo de uma acólita de ninfa desnudada que tombara á porta da divisão horas antes de esgotamento físico, o psicológico perdera capacidade de ser atingido por tal algures entre a sétima ou oitava garrafa esvaziada, e dirigiu-se à sanita para despejar o que ficara no organismo da noite anterior.
A cabeça ainda rodava, era a parte maldita da ressaca: A ausência de prazer. Por mais aflita que uma bexiga se encontre no momento em que está prestes a ser esvaziada e tal gesto traga uma sensação de de alívio e satisfação, nunca tal se poderá comparar a ter um corpo feminino debruçado sobre ele aos beijos enquanto outros lábios da mesma natureza circundam a zona da pélvis, cercado de uma barreira de gargalhadas e gemidos.
Guadou o falo no que restava dos boxers (que não se recordava se eram os seus) e foi lavar as mãos e a cara. Questionou-se sobre o que teria acontecido apesar de se recordar do suficiente para responder á própria pergunta, a dúvida era puramente retórica. Ele sabia muito bem que naquela noite tinha celebrado uma orgia contempôranea com alguns amigos seus e desconhecidos á mistura na casa de um colega seu.
Enquanto durara, a diversão fora intensa, nunca pensara ver C#*&% no papel de Ishtar com três rapazes, muito menos acharia razoável se lhe contassem que nessa noite M*%#& tivesse possuido toda a fêmea na casa com o seu consentimento. Os embriagantes têm de facto, poderes incríveis.
Levantou a cabeça do lavatório ao lembrar-se de um detalhe que agora não sabia como abordar, escondera o conteudo daquela noite á mulher. Agora preocupava-o o facto de a culpa o poder denunciar á pessoa que ama. Repetiu para si mesmo que não deveria ter vindo á celebração, repetia-o incessantemente, mas no seu íntimo pensava que não poderia ter agido de outra forma.
Toda a vida ansiara por um evento de lúxuria da magnitude do que testemunhara e fizera parte, assim que a oportunidade se apresentou ele abraçou-a com toda a força, sem se preocupar com a mágoa que a revelação dessa acção poderia trazer a quem também o amava, mais do que qualquer vagina que a ele se oferecera em libertinagem. Sabia que estaria a ser egoísta, sabia que estaria a ser maldoso, sabia que estaria a ser hipócrita, mas não hesitara em ir contra tudo isso por um capricho de volúpia incosciente, nem tão pouco projectara o que faria depois.
Agora deparava-se com essa realidade e a resposta ao que fazer era tão dúbia quanto o estado de sobriedade com que estava horas antes, no momento em que pousou a mão sobre o primeiro seio alheio da longa e louca noite.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Mais Uma Carta a Desconhecida

Boa Vida

Quantas vezes a noite fria e a falta de companhia me impediu de ter um motivo forte para dar uma volta na rua? Muitas vezes, vezes demais. Procuro-a, atribuo-a, raramente a encontro, por isso vagueio de qualquer maneira enquanto me perco em suposições, em frustrações, em desejos e em desilusões. É um grande fardo ser solitário, é um fardo ainda maior ser solitário e não o desejar, é asfixiante suspirar por alguém que não está lá e é uma tarefa cínica tentar contentar-me com incompletos.
Não te vou encontrar Desconhecida, não o mereço, não te devo encontrar, para o teu próprio bem. Penso sobre a responsabilidade com que te delego sem oferecer o que esperas de mim, acima de tudo por desconhecimento do que é isso em concreto mas talvez mesmo que o soubesse, não o aceitaria, tanto uma coisa como outra é demasiado egoísta da minha parte.
Salva-te portanto, sê feliz, tirarei dai grande proveito, maior do que provavelmente tu alguma vez tirarás de mim. Provavelmente... esta palavra, esta atitude, além de ser tremendamente derrotista é acima de tudo arrogante. Sim, arrogante porque me dou á arrogância de me assumir correcto acerca de um assunto sobre o qual não tenho factos, apenas receios, para o justificar com o mínimo grau de certeza.
Talvez na verdade eu até seja também tudo o que desejas porque talvez estejas tu farta de depositar responsabilidades nos outros e procures alguém que não se submeta ás condições que impões, talvez te agrade alguém que te desafie a encarar situações novas, nesse caso este teimoso revoltado pode ser a companhia ideal com a sua arrogância, hipocrisia e sinceridade. Talvez estejas farta de máscaras e pretendas ter alguém absolutamente sincero, alguém fácil de desvendar as intenções com razão absoluta. Por mais complicado que seja coexistir com essas máscaras com quem te dás todos os dias, elas serão infinitamente mais fáceis de suportar porque a sinceridade por vezes magóa mais do que a mentira e a omissão. A sinceridade raramente equivale ao que é correcto e menos vezes ainda equivale ao que é agradável. Qual a vantagem então de seres quem preciso se não equivaler ao mesmo para ti? Nenhuma explicável pelos parâmetros da lógica. Cá estamos nós cercados de paradoxo... A mais bela e gentil vontade de nos desejarmos ter um ao outro não passa no fundo de uma reflexão dos nosso desejos mais egoístas por algo que ansiamos.

Sem dúvida alguma, foste feita á medida para mim. Eu conheco-te. Melhor do que ninguém. Melhor do que a mim.
O que é que tu queres? O que eu quero. O que não consegues encontrar no que os outros te dão. O brilho inexplicável da malícia da noite que não reside em discotecas nem bares. A luz do candeeiro a iluminar a caneta nas nossas mãos. A cabeça a funcionar intensivamente em busca de uma resposta, de um objectivo, de um meio. A crítica ao incompleto que pauta a tua existência. A busca dessa particula de Deus que te vai destacar no meio do ecrã negro. A convicção de que és tão boa ou melhor que a tua concorrência, leal e desleal.
A determinação está lá e é dela que quero beber, dessa inquebrabilidade, dessa vontade mais forte do que tudo em triunfar onde os outros falham, de ser Alguém.

Atentamente

Nuno Miguel Silva

P.S. Começo seriamente a enjoar da palavra "talvez", és livre de me sugerir o uso de outra que represente tão bem um nivél de incerteza impossível de ser medido.

Nova Carta a Desconhecida

Boa qualquer altura do dia que seja

São 4 da matina e não consigo deixar de pensar em ti, true fact, apoquenta-me a incerteza de te vir a encontrar ou não, não sei como me comportar na tua presença se o fizer, não quero ser ridículo. Porque é que tu que á Arte te dedicas havias de gastar tempo comigo? Que tenho para te oferecer?
Estou num dilema sobre o que fazer, se fores quem imagino perdoar-me-ás a dúvida, deverei ir á tua procura ou esperar que venhas aqui ter? Estarei a cometer o erro de forçar dar-te cara para acalmar esta necessidade por uma prova da tua existência ou a deixar-me cair da moleza e esperar que me venha é o futuro buscar a casa? De qualquer maneira, quero-te conhecer, não estou disposto a adiar mais esse encontro que a minha alma acima de tudo precisa, preciso de ti, urgentemente.
Eu, eu, eu... Raios. O míudo é egocêntrico como tudo! "Então e eu!?" poderas perguntar tu, pergunto o mesmo, então e tu? O que queres? O que é que podes tirar daqui que já não tenhas noutro lado? Sinceramente não tenho certeza de nada quanto a isso mas é minha intenção como já disse retribuir-te o máximo possível o que me dás e se és o meu sonho então isso pra ti chegará, dás por dar em simpatia sem por nada trocar.
Preciso de te encontrar fantasma, contar-te as mil histórias que consigo fantasiar contigo nelas, a maneira como te penteias á frente do espelho, os teus critérios de escolha de roupa, o teu humor quando vês um pombo a engatar na calçada uma pomba, se desvias a cara quando o sem-abrigo estica a mão, se tiras o casaco quando andas de transportes... Quero contar-te o quanto desejei encontrar-te, talvez te rias ou talvez cores, qualquer um dos dois seria uma vitória.
Eu vou-te encontrar, e vou-te amar como és com ou sem reflexo disso, a tua companhia é tudo o que preciso, que existas, que estejas aí fora, de vir a descobrir que mil vezes contigo me cruzei sem de um traço me recordar e que quando em ti os olhos pousar me lembre subitamente de todas essas coincidências. Existe. Precisa de mim.

Atentamente

Nuno Miguel Silva

P.S. Se já te encontrei e tiveres a ler isto deves tar a achar um piadão, se não... Vais ler, vou-te encontrar, e logo então me dirás.

Carta a Desconhecida

Bom dia, boa tarde ou boa noite.

Olá.
Eu não te conheço, muito menos sequer te vi. Esta é a verdade, com toda a simplicidade com que a Mariana Neto usa a frase múltiplas vezes sem muitas dessas vezes saber exactamente do que é que está a falar. O tom é esse, simples e desprendido mas fiel á reflexão momêntanea que gerou a frase. Quem é a Mariana? Depois conto-te melhor.
Eu não te conheço e no entanto desconheço fantasma algum que me gere tamanha admiração como fazes. Talvez o prazer esteja em parte aí, se te conheçesse talvez metade do interesse se desvancesse, talvez. Provavelmente não passas duma projecção minha de companhia ideal... Mas talvez não e prefiro acreditar nisso.
Tens, portanto, a minha admiração. Tanto pela obra como pelo que imagino ser o esforço dedicado a ela e mais ainda pela naturalidade com que imagino transformas esse esforço em hábito natural destruindo assim o conceito de esforço por paixão. Lês, escreves, fotografas, posas, desenhas, esculpes, filmas, és filmada, compões e pensas. Tenho a clara convicção que pensas, que pensas no que fazes muito mais do que no que queres, quero com isto dizer. Uma pessoa de acção.
Dou comigo neste momento a pensar que tenho sentimentos egóistas porque quero-me instruir dos teus conhecimentos, da tua vontade, mas também te quero instruir, tentar no mínimo, talvez ao menos aprenda alguma coisa ao falhar isso. Já ia ser mais qualquer coisa.
Não te conheço, mas imagino noites sem fim sentado de café em punho ou a andar ruas intermináveis a falar sobre a vida, mais do que a tua, a minha, ou a dos outros (embora me fascine a ideia de conhecer quem me faz pensar assim). Quero falar contigo sobre o mundo, quero falar contigo sobre a arte, quero-me sentir burro por ficar sem perceber certas coisas que digas, para sentir aquela sede de ir pesquisar sobre o assunto e assim te puder acompanhar a próxima conversa que tivermos somente para me voltar a sentir burro mais á frente e repetir o processo até ao dia em que te cales por não ter mais nada para contar que não saiba, acontecimento que não acredito venha a acontecer. Não quero que te cales e não quero ficar calado, quero-te ouvir, quero que me oiças, que penses sobre o que digo como penso sobre o que nem te ouvi dizer. Quero que me faças rir e quero-te fazer rir sem ter de contar piadas de revista semanal. Quero recompensar-te com conhecimento o conhecimento que me ofereçes sem mais intenção do que comunicar, just for the sake of it.
És bué fixe, e nunca te vi, parabens.

Atentamente

Nuno Migel Silva

P.S. Amanhã escrevo-te outra talvez, a esta hora já não consigo manter os olhos abertos. Obrigado por me trazeres o sono.

terça-feira, 22 de março de 2011

Tempo

O tempo passa demasiado depressa, já o disseram muitas vezes. Devia-te ter conhecido quando tive a oportunidade, alias, devia-te ter conhecido da primeira vez que tive a oportunidade e o impulso. Mas não, salvaguardei tal para outra altura não sei bem porquê, talvez tenha sido porque na altura não bebia café (esse que já era bem vindo a esta hora para me acordar, não quero dormir) e a auto-estima também, faltava-me uma desculpa que quando penso nela me parecia fácil de encontrar nem que fosse directa demais. Talvez por culpa desse adiar agora nunca venha a descobrir o que queria ter, é uma pena, sinceramente, não imaginas o quanto o considero, é capaz de não fazer sentido... Mas sinto. E isso é puro, não têm qualquer chantagem psicológica, simplesmente uma pessoa não pode deixar de ter desejos que escapam ao que é sensato.

“Ergue-te! Ergue-te da apatia que governa o mundo para dar obra á vontade que guia os sonhos,  dispensando a ameaça que o desprezo representa! Faz ruir as convicções dos que te julgam incapaz! Ergue-te e conquista o que é teu por direito!". Eu erguo-me, espero que a constragosto de muita gente.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Serpente

Tu, simpátíca face, trespassas uma sensação de resoluta obstinação acerca de sonhos cujo objectivo final não consigo prever. Frágil, tão aparentemente frágil e ao mesmo tempo tão suspeituosamente inquebrável pelas marés mais negras e frias por onde navegas regularmente. Talvez elas não sejam assim tão negras se afinal de contas as iluminares de sarcasmo e ironia, de raiva. Talvez até as procures como teste á tua capacidade martirizadora... Por simples impulso ou algo mais ponderado como um desafio á própria lógica de como as coisas funcionam. E Perdão, qual é a tua posição perante a sua possibilidade? Existe? Até que nível de sinceridade? Quero saber. Quero saber muito mais do que o teu silêncio oferece. Quero saber muito mais do que a tua mente têm para revelar. Quero descobrir o que tens para aprender e ensinar. Quero provar mais desse veneno que asfixia a alma inquiridora e a enche de receios acerca do que deseja enquanto procura por uma escama mal colocada na tua pele para te morder e assim devolver esse néctar bipolar que é a dúvida. Sibila, suavemente e distraída, desliza, seguramente, mata, libidosamente.

sábado, 19 de março de 2011

Dualidade

Será verdade, quando digo que quando não me apetece ler mas sim escrever, que não sei sobre o quê ou como?

Divago, sinto a mente a aproximar-se de cenários arriscados e afastados dquele que tinha idealizado. O Amor é vago, sinto-me tentado a admitir que o meu não passa hoje em dia de uma memória. Não o encontro onde o quero encontrar, procuro-o onde provavelmente não está, levado pela tentação de o voltar a descobrir, ao estilo de um conto de encantar, onde ele é improvável mas possível, por mais que assente em premissas erradas á partida das quais não tenho certeza. Não uso o meu tempo, sendo sincero, á procura de o encontrar no sítio do qual sinto falta, estou magoado (ou estive) e agora em defesa própria escuso-me ao risco de voltar ao local do crime para verificar se alguma coisa sobreviveu, não quero descobrir se tenho razão em não voltar a pôr lá os pés, receio despertar a frustração já vivida anteriormente. Fica a questão, preciso mais de descobrir se estou enganado ou de ir "pecar" para outro lado?

Em caso de desilusão, jamais esta será igual comparada com a de bater com os dentes no mesmo chão onde fiquei com a cara desfigurada. É uma atitude mais prudente. "Pode ser a atitude errada. No pain, no gain". "Amigo", já tive a atitude "correcta" vezes demais para o que me estás a dizer despertar um sentimento novo sobre o qual ponderar, essas mesmas palavras repeti a mim mesmo vezes incontáveis, esta dúvida é antiga, apenas o rumo se altera desta vez. Ninguém me pode dizer que esta tomada de atitude será a correcta ou a errada, sou eu que tenho de decidir e assumir as consequências. Não estou pronto para tanta dor vinda do mesmo local de onde a recebi, estou a recuperar dela muito bem, porque me haveria de arriscar a inverter esse processo a troco de poder ter uma surpresa satisfatória? E que perco em não o fazer? Talvez toda a felicidade do mundo, esse mundo de dualidade que dá sentido a responder também da seguinte maneira: Nada, talvez até seja é essa a maneira de encontrar toda a felicidade do mundo e sendo assim arrisco-me também a encontrar precisamente o que preciso no canto oposto de onde a pensei encontrar, como aliás, em muitas outras coisas da vida acontece.

"E quais são as hipóteses disso seguindo esse caminho?". As mesmas, exactamente as mesmas, por mais que geradas de maneiras totalmente diferentes. Pode muito provavelmente acabar em desgraça a aí vou pensar que não devia ter seguido esse caminho, vou-me arrepender de o ter feito, projectando que caso insistisse no plano original tudo teria corrido bem desta vez, vou pensar que fui um palhaço precipitado (por mais que de momento sinta que precipitação é coisa que não existe em relação ao assunto) e egoísta. Aí estarás tu para me dizer "Pode ser a atitude errada. No pain, no gain". Pois. Estou-te a perceber alter-ego, andaste a ler aquelas frases soltas de sabedoria popular que pouco ou nada especifica sobre coisa alguma mas que nos deixam a pensar de qualquer maneira sobre o seu significado enquanto nos impulsionam a tomar uma atitude. Deixa então que te diga uma coisa: Não importa o que elas dizem, importa sim a maneiro coma as lês, a maneira como as interpretas, a maneira como ages sobre elas. Dualidade, lembras-te? Tudo pode ser interpretado de formas diferentes, o correcto de forma errada e o errado de forma correcta, as fontes são apenas guidelines, tal como as próprias "sagradas" escrituras, não existe Um significado para tudo, acabei de te justificar o Caos. Consegues tu resolver a minha dúvida? Não, então deixa-me agir. Whatever happens, happens, terei sempre a satisfação eterna de ao menos o que acontecer ter sido permitido por mim e não imposto por um livro de comportamento "correcto" e "ético". Sou livre.

"Desolation spreads in chaotic convulsions". So does Joy. I'll find you... I'll find you.

"Only he is lost who gives himself up for lost" by Hans-Ulrich Rudel, piloto nazi... Estão a ver o que quero dizer quando falo em dualidade?