Boa Vida
Quantas vezes a noite fria e a falta de companhia me impediu de ter um motivo forte para dar uma volta na rua? Muitas vezes, vezes demais. Procuro-a, atribuo-a, raramente a encontro, por isso vagueio de qualquer maneira enquanto me perco em suposições, em frustrações, em desejos e em desilusões. É um grande fardo ser solitário, é um fardo ainda maior ser solitário e não o desejar, é asfixiante suspirar por alguém que não está lá e é uma tarefa cínica tentar contentar-me com incompletos.
Não te vou encontrar Desconhecida, não o mereço, não te devo encontrar, para o teu próprio bem. Penso sobre a responsabilidade com que te delego sem oferecer o que esperas de mim, acima de tudo por desconhecimento do que é isso em concreto mas talvez mesmo que o soubesse, não o aceitaria, tanto uma coisa como outra é demasiado egoísta da minha parte.
Salva-te portanto, sê feliz, tirarei dai grande proveito, maior do que provavelmente tu alguma vez tirarás de mim. Provavelmente... esta palavra, esta atitude, além de ser tremendamente derrotista é acima de tudo arrogante. Sim, arrogante porque me dou á arrogância de me assumir correcto acerca de um assunto sobre o qual não tenho factos, apenas receios, para o justificar com o mínimo grau de certeza.
Talvez na verdade eu até seja também tudo o que desejas porque talvez estejas tu farta de depositar responsabilidades nos outros e procures alguém que não se submeta ás condições que impões, talvez te agrade alguém que te desafie a encarar situações novas, nesse caso este teimoso revoltado pode ser a companhia ideal com a sua arrogância, hipocrisia e sinceridade. Talvez estejas farta de máscaras e pretendas ter alguém absolutamente sincero, alguém fácil de desvendar as intenções com razão absoluta. Por mais complicado que seja coexistir com essas máscaras com quem te dás todos os dias, elas serão infinitamente mais fáceis de suportar porque a sinceridade por vezes magóa mais do que a mentira e a omissão. A sinceridade raramente equivale ao que é correcto e menos vezes ainda equivale ao que é agradável. Qual a vantagem então de seres quem preciso se não equivaler ao mesmo para ti? Nenhuma explicável pelos parâmetros da lógica. Cá estamos nós cercados de paradoxo... A mais bela e gentil vontade de nos desejarmos ter um ao outro não passa no fundo de uma reflexão dos nosso desejos mais egoístas por algo que ansiamos.
Sem dúvida alguma, foste feita á medida para mim. Eu conheco-te. Melhor do que ninguém. Melhor do que a mim.
O que é que tu queres? O que eu quero. O que não consegues encontrar no que os outros te dão. O brilho inexplicável da malícia da noite que não reside em discotecas nem bares. A luz do candeeiro a iluminar a caneta nas nossas mãos. A cabeça a funcionar intensivamente em busca de uma resposta, de um objectivo, de um meio. A crítica ao incompleto que pauta a tua existência. A busca dessa particula de Deus que te vai destacar no meio do ecrã negro. A convicção de que és tão boa ou melhor que a tua concorrência, leal e desleal.
A determinação está lá e é dela que quero beber, dessa inquebrabilidade, dessa vontade mais forte do que tudo em triunfar onde os outros falham, de ser Alguém.
Atentamente
Nuno Miguel Silva
P.S. Começo seriamente a enjoar da palavra "talvez", és livre de me sugerir o uso de outra que represente tão bem um nivél de incerteza impossível de ser medido.
Quantas vezes a noite fria e a falta de companhia me impediu de ter um motivo forte para dar uma volta na rua? Muitas vezes, vezes demais. Procuro-a, atribuo-a, raramente a encontro, por isso vagueio de qualquer maneira enquanto me perco em suposições, em frustrações, em desejos e em desilusões. É um grande fardo ser solitário, é um fardo ainda maior ser solitário e não o desejar, é asfixiante suspirar por alguém que não está lá e é uma tarefa cínica tentar contentar-me com incompletos.
Não te vou encontrar Desconhecida, não o mereço, não te devo encontrar, para o teu próprio bem. Penso sobre a responsabilidade com que te delego sem oferecer o que esperas de mim, acima de tudo por desconhecimento do que é isso em concreto mas talvez mesmo que o soubesse, não o aceitaria, tanto uma coisa como outra é demasiado egoísta da minha parte.
Salva-te portanto, sê feliz, tirarei dai grande proveito, maior do que provavelmente tu alguma vez tirarás de mim. Provavelmente... esta palavra, esta atitude, além de ser tremendamente derrotista é acima de tudo arrogante. Sim, arrogante porque me dou á arrogância de me assumir correcto acerca de um assunto sobre o qual não tenho factos, apenas receios, para o justificar com o mínimo grau de certeza.
Talvez na verdade eu até seja também tudo o que desejas porque talvez estejas tu farta de depositar responsabilidades nos outros e procures alguém que não se submeta ás condições que impões, talvez te agrade alguém que te desafie a encarar situações novas, nesse caso este teimoso revoltado pode ser a companhia ideal com a sua arrogância, hipocrisia e sinceridade. Talvez estejas farta de máscaras e pretendas ter alguém absolutamente sincero, alguém fácil de desvendar as intenções com razão absoluta. Por mais complicado que seja coexistir com essas máscaras com quem te dás todos os dias, elas serão infinitamente mais fáceis de suportar porque a sinceridade por vezes magóa mais do que a mentira e a omissão. A sinceridade raramente equivale ao que é correcto e menos vezes ainda equivale ao que é agradável. Qual a vantagem então de seres quem preciso se não equivaler ao mesmo para ti? Nenhuma explicável pelos parâmetros da lógica. Cá estamos nós cercados de paradoxo... A mais bela e gentil vontade de nos desejarmos ter um ao outro não passa no fundo de uma reflexão dos nosso desejos mais egoístas por algo que ansiamos.
Sem dúvida alguma, foste feita á medida para mim. Eu conheco-te. Melhor do que ninguém. Melhor do que a mim.
O que é que tu queres? O que eu quero. O que não consegues encontrar no que os outros te dão. O brilho inexplicável da malícia da noite que não reside em discotecas nem bares. A luz do candeeiro a iluminar a caneta nas nossas mãos. A cabeça a funcionar intensivamente em busca de uma resposta, de um objectivo, de um meio. A crítica ao incompleto que pauta a tua existência. A busca dessa particula de Deus que te vai destacar no meio do ecrã negro. A convicção de que és tão boa ou melhor que a tua concorrência, leal e desleal.
A determinação está lá e é dela que quero beber, dessa inquebrabilidade, dessa vontade mais forte do que tudo em triunfar onde os outros falham, de ser Alguém.
Atentamente
Nuno Miguel Silva
P.S. Começo seriamente a enjoar da palavra "talvez", és livre de me sugerir o uso de outra que represente tão bem um nivél de incerteza impossível de ser medido.