segunda-feira, 28 de março de 2011

Carta a Desconhecida

Bom dia, boa tarde ou boa noite.

Olá.
Eu não te conheço, muito menos sequer te vi. Esta é a verdade, com toda a simplicidade com que a Mariana Neto usa a frase múltiplas vezes sem muitas dessas vezes saber exactamente do que é que está a falar. O tom é esse, simples e desprendido mas fiel á reflexão momêntanea que gerou a frase. Quem é a Mariana? Depois conto-te melhor.
Eu não te conheço e no entanto desconheço fantasma algum que me gere tamanha admiração como fazes. Talvez o prazer esteja em parte aí, se te conheçesse talvez metade do interesse se desvancesse, talvez. Provavelmente não passas duma projecção minha de companhia ideal... Mas talvez não e prefiro acreditar nisso.
Tens, portanto, a minha admiração. Tanto pela obra como pelo que imagino ser o esforço dedicado a ela e mais ainda pela naturalidade com que imagino transformas esse esforço em hábito natural destruindo assim o conceito de esforço por paixão. Lês, escreves, fotografas, posas, desenhas, esculpes, filmas, és filmada, compões e pensas. Tenho a clara convicção que pensas, que pensas no que fazes muito mais do que no que queres, quero com isto dizer. Uma pessoa de acção.
Dou comigo neste momento a pensar que tenho sentimentos egóistas porque quero-me instruir dos teus conhecimentos, da tua vontade, mas também te quero instruir, tentar no mínimo, talvez ao menos aprenda alguma coisa ao falhar isso. Já ia ser mais qualquer coisa.
Não te conheço, mas imagino noites sem fim sentado de café em punho ou a andar ruas intermináveis a falar sobre a vida, mais do que a tua, a minha, ou a dos outros (embora me fascine a ideia de conhecer quem me faz pensar assim). Quero falar contigo sobre o mundo, quero falar contigo sobre a arte, quero-me sentir burro por ficar sem perceber certas coisas que digas, para sentir aquela sede de ir pesquisar sobre o assunto e assim te puder acompanhar a próxima conversa que tivermos somente para me voltar a sentir burro mais á frente e repetir o processo até ao dia em que te cales por não ter mais nada para contar que não saiba, acontecimento que não acredito venha a acontecer. Não quero que te cales e não quero ficar calado, quero-te ouvir, quero que me oiças, que penses sobre o que digo como penso sobre o que nem te ouvi dizer. Quero que me faças rir e quero-te fazer rir sem ter de contar piadas de revista semanal. Quero recompensar-te com conhecimento o conhecimento que me ofereçes sem mais intenção do que comunicar, just for the sake of it.
És bué fixe, e nunca te vi, parabens.

Atentamente

Nuno Migel Silva

P.S. Amanhã escrevo-te outra talvez, a esta hora já não consigo manter os olhos abertos. Obrigado por me trazeres o sono.

7 comentários:

  1. 'Como posso eu revelar este desejo que ocorre em mim, de puder elogiar os teus pensamentos capturados nessas palavras?
    Não há uma forma rebuscada, correcta, ou talvez inexacta de me propender sobre ti e julgar aquilo que não foi para ser avaliado, mas contemplado como uma imagem num polaroid.
    Se me sujeito, se me expresso, é porque quero filtrar esta exposição lumínica de que identifico numa parte obscura de mim.
    Foi obra do acaso. Como um tripé debruçaste-te no meu ombro, focaste e apreciaste-me a venusidade, com o flash reconheces-te-te numa parte inerente à minha individualidade, como um diafragma abriste-me o coração com o proferir das tuas calculadas e sinceras palavras, ás quais confirmei, como um obturador, a verocidade no teu sentido corpóreo.
    Cobiço esse fotógrafo, nestes positivos revelados, quero olhar pela sua objectiva mais uma vez e retribuir tudo aquilo que um dia, num momento, me capturou.

    Um inesperado, momentâneo e intrincado elogio.


    "Aquilo a que chamamos acaso não é, não pode deixar de ser, senão a causa ignorada de um efeito conhecido." - Voltaire

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  2. Sinto que me conhece pessoalmente desconhecida, pode-me ser concedido o privilégio do conhecimento sobre o que digo?

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    1. Pena.
      Gostava que tivesse sido evidente.
      Tal como a evidência de que a passagem acima possuí, duas directrizes interpretativas às quais, numa delas, descrevo a situação em que nos conhecemos. E que por "acaso" se passou neste mesmo dia primaveril, há exactamente um mês atrás.
      Não posso proferir mais do que já fora proferido.
      Tentei despertar o teu inconsciente para a lembrança.
      Agora, só depende de ti.

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    2. "Evidente" é uma palavra complicada de se atribuir ao que quer que seja relacionado com estas cartas como decerto compreendes, sucede que tais directrizes me transportam para várias alturas do meu passado impossíveis de distinguir tão facilmente, já sobre datas, o tempo faz com que a memória falhe em precisão mas recordo-me de alguns acontecimentos á volta da que me é dada, ora em dias ora em anos, mas num mês preciso sou incapaz de me lembrar e se mais óbvio não podes ser passarei mais uma jornada no deserto.

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    3. Mais uma jornada no deserto, dizes tu.
      Desacredito da possibilidade que a minha não revelação te sujeite a tamanha solidão. Mas quem sou eu para garantir.
      Disse que não poderia mais nada proferir, mas também disse que só dependeria de ti.
      Queria somente que antes tomasses consciência de que a realidade não é, nunca foi nem nunca será assim tão aprazível quanto o desconhecido, este faz-te inseguro, curioso, torna-te inspirado e acima de tudo, sonhador. O que significa que quereres converter-me numa figura virá da tua vontade para encarares a realidade.
      Ao ler estes teus escritos e mesmo desconhecendo o teu espírito pude constatar algo; o suficiente para perceber que estava em dívida e que tinha de algum modo retribuir aquilo com que uma vez me tinhas presenteado. Foi só por isso que aqui vim, elogiar todos estes textos, e não só, também quem os escreveu.
      Ainda assim, (por tudo aquilo que disse e o que ainda não disse) apetece-te saber quem sou?

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    4. Compreendo o teu raciocínio no entanto existem coisas que apesar me conheceres não comprendes ainda pelo facto de ter fechado a minha imaginação a sete cadeados escondendo-a dos olhos alheios, estas cartas foram o último rasquício de expressão directa a verem a luz do público e duvido que sejas das poucas pessoas a quem um pouco mais sobre mim foi revelado e se mantém actual. De facto arrisquei-me no momento em que te negei cara nestas cartas a perpetuar a tua identificacão no limbo, com razão me dizes que o desconhecido é muito mais fértil para o transpirar da curiosidade, sucede que o que escrevi na última delas mantem-se actual: Já encontrei a Desconhecida e ela não tem uma cara mas sim várias, motivo pelo qual a revelação da tua verdadeira identidade não destruirá de forma alguma essa conclusão, servirá sim para acalmar a confusão que me causa num momento particularmente conflituoso da minha vida não saber quem existe que agradece o que represento/ei para ela, acalmia essa desejada até ao cúmulo do inconsciente. A minha imaginação vive forte como sempre, somente a sua comunicação é mais tímida do que nunca mas aguarda ansiosamente o momento para se soltar com uma força faustosa. Vi e senti o suficiente no último ano para querer abraçar a realidade, no mínimo com tanta força como o sonho, a minha mente e o meu corpo disso necessitam para voltarem á sanidade, conto com a tua ajuda para isso.

      "I want to live a real life... I don't want to dream any longer"

      Se reconheceres esta linha de um dos poucos filmes que me consegue fazer jorrar sal dos olhos compreenderás o motivo e a força com a qual peço com que reveles a tua identidade sem que com isso deixes de conter em ti parte da Desconhecida que amo.

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    5. Assisti esse filme vezes suficientes para descortinar que a analogia que fizeste é brilhante. Visionei pela primeira vez esse filme no Cineclube, pergunto-me se também lá estavas... Quem sabe.
      A realidade para mim é assim, uma desesperança.
      Uma guerra para onde recrutada fui sem aviso. Uma batalha solitária onde não existe entidade que se digne a proteger-me, onde nem mesmo a bondade, a sensibilidade, o optimismo, a compaixão, a motivação, a honestidade e a moral que tinha chegaram para combater esse desengano.
      Refugiei-me portanto no sonho, um abrigo do qual fiz o meu asilo. Lá forjei a minha espada, o meu elmo, o meu escudo e afrontei essa desilusão que insistia em renegar a minha essência, a minha existência. Sou por isso uma anti-heróina, uma eterna aprendiz da vida à espera do dia em que a realidade desposará o sonho.

      Utilizo portanto as tuas palavras: "Não quero viver num Sonho, quero viver um Sonho".

      Referes que detenho parte dessa Desconhecida. De certo cheguei a identificar-me, considerei que talvez estas cartas fossem dirigidas a mim, julguei ter visto essa entidade protectora na tua silhueta, como num pressentimento suspirado a pedir tréguas. Mas a pretensiosidade dessa alegação é demasiado insensata e talvez ilusória.
      E por isso, mesmo que te soletrasse a circunstância em que nos conhecemos, nunca entenderias o essencial que foi aquilo que senti. A situação foi demasiado banal e irrisória para te conseguir transmitir essa acepção primordial.
      Que vantagem subsiste então se nunca representarei para ti aquilo que representaste para mim.
      Não quero dar-te a oportunidade de confrontares aquilo porque tenho lutado. Temia destabilizar esse equilíbrio que tanto procuras. Temo arrepender-me se tal fizesse. Se afirmas que essa ela tem várias caras, com certeza já contemplaste algumas, qual a diferença então se ignorarmos uma? Esta.
      Prefiro continuar a ser essa Desconhecida, não me quero desapropriar desse título.
      Se afinal sou aquilo que procuras, então isso possivelmente bastará.

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